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Lições de música

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“Ao refletir sobre a expansão de suas experiências com a música, Elaine Sandoval nos convida a considerar as possibilidades de uma educação musical cosmopolita e como isso pode mudar nossa compreensão do mundo”. 

Quando estava no ensino fundamental 1, minha mãe me levava para concertos de orquestras. Ainda me recordo de sua inclinação [para a música] antes da apresentação ou enquanto aguardávamos na fila do banheiro durante o intervalo, encorajando-me silenciosamente a observar as pessoas ao nosso redor. Por meio dessas observações demográficas, aprendi que muitas vezes elas não se pareciam conosco, mas eu também poderia me imaginar pertencendo a este espaço, especialmente se praticasse bastante como música clássica.

No ensino fundamental 2, eu tocava em um pequeno conjunto de sopro com outras garotas da minha idade, e gostávamos de um repertório que continha algumas peças marciais japonesas. Certo dia, nosso ensaio foi gentilmente interrompido quando um treinador nos estimulou a pensar em como nossa plateia da região da Baía de São Francisco, que frequentemente incluía imigrantes coreanos, taiwaneses e chineses, se sentiria ao ouvir aquelas músicas que remetiam a um passado violento da época colonial.

Todos os dias, no ensino médio, eu deslizava em sapatos de dança com salto em uma hora de treinamento de dança folclórica mexicana. Como passava o dia em escola pública, onde muitas vezes lutava para me identificar com o conteúdo de nossas aulas de história ou mesmo com o repertório da banda de concerto, as aulas de dança folclórica eram como um momento secreto em que poderia imaginar a sensação de abraçar plenamente a minha herança, as memórias dos meus avós e de estar em um mundo que não requeria assimilação.

Na China, durante um curso da faculdade no exterior, a avó que me hospedou me levava no fim de semana para aulas de um coral de idosos, no qual as músicas e memórias da era Mao eram revigoradas. Adequando minha voz a harmonias desconhecidas e a novas palavras chinesas que eu estava aprendendo na aula, minha boca e trato vocal pareciam se tornar como os deles e meu corpo aprendeu a imaginar o orgulho e a nostalgia que estavam revivendo, mesmo quando contrariavam as narrativas que eu estava aprendendo nas aulas de história.

Em 2013, uma colega de classe foi ferida no atentado na Maratona de Boston. Apenas algumas semanas depois, planejamos uma pequena cerimônia de graduação para nossa confraria musical. Enquanto vários membros do nosso grupo queriam celebrar com música, ela compartilhou conosco como sua ansiedade continuou a aumentar dolorosamente com o som alto. Como estávamos todos empenhados em promover os valores da educação musical, também tivemos de imaginar a experiência da música de outras maneiras para um corpo traumatizado e temporariamente capacitado.

Nossos típicos modelos de educação musical com frequência se baseiam nos valores da música clássica ocidental, tendendo a privilegiar a ideia que compreendi desde a infância — que a educação musical é valiosa como um mecanismo de mobilidade social ou como um caminho para adquirir conhecimentos e hábitos de “alta” cultura e habilidades para o sucesso no local de trabalho. Treinei, séria e rigorosamente, como música clássica por mais de uma década e, de fato, conquistei muita compreensão e habilidades privilegiadas. Mas é sobre essas outras experiências de educação musical que continuo a refletir. Essas experiências me obrigaram a imaginar realidades diferentes e contextos além dos meus; imaginações que exigiam nova ousadia, desconforto e reflexividade, e que mudaram minha compreensão do mundo.

Por muito tempo, as ideias de educação musical enfatizaram o valor da mobilidade ascendente. Porém, acredito que a pedagogia da música também permite a mobilidade em múltiplas dimensões. É um espaço que pode dar acesso a formas alternativas de ser, a uma compreensão empática das experiências dos outros e a uma compreensão aprofundada da própria comunidade. Como tal, entendo a música como algo capaz de cultivar a imaginação, a abertura e o senso de si necessários para navegar em mundos culturais cada vez mais complexos.

O filósofo da educação David Hansen consideraria essa sensibilidade como forma de cosmopolitismo. Hansen esclarece que uma educação cosmopolita cultiva de imediato a lealdade ao conhecido e uma abertura para o novo, bem como uma
compreensão de diferentes maneiras de ser no mundo. Acredito que aprender música, especialmente músicas que representam uma diversidade de contextos sociais, contribui imensamente para promover o cosmopolitismo.

Minhas próprias experiências musicais casuais me ensinaram a dar abertura a outras formas de experimentar a música, aquelas que representavam lembranças históricas, mundos sociais e sentimentos incorporados, que eram completamente novos para mim. Elas também me deram espaço para entender mais profundamente o que já era familiar e para abraçar minha herança lealmente como fonte de minha própria força. Além do mais, essas experiências musicais interromperam — às vezes, desconfortavelmente — ideias e valores que já me haviam ensinado. Em vez disso, ensinaram-me a questionar meu entendimento sobre a música clássica como algo intrinsecamente valioso, da neutralidade e da universalidade das experiências musicais e da música de culturas minoritárias como as pertencentes à periferia.

Essas novas sensibilidades, que surgiram de diversas experiências musicais, mudaram meu próprio modo de pensar e de imaginar as experiências dos outros. Mas elas também me levaram a repensar o que poderia ser incluído na educação musical. Desenvolver uma educação musical que busca o cosmopolitismo não só permite novas maneiras de imaginar individualmente, como também radicalmente reimaginar nossas normas pedagógicas. As experiências musicais que compartilho aqui são únicas e acidentais, e ainda não tenho muitas propostas concretas para pôr essas ideias em prática. Por ora, faço isso como ponto de partida e convido os outros a se juntarem a mim para pensar em como seria uma educação musical cosmopolita em ação.

“Elaine Sandoval é doutoranda em etnomusicologia no Centro de Graduação da Universidade da Cidade de Nova York e possui mestrado em música pela Universidade de Oxford. Também é pesquisadora afiliada da Associação de Concertos Min-On em Tóquio, Japão”.