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Programando um novo futuro

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Entrevista com Hugh Bosely

 ReBootKamp (RBK) é um programa de treinamento técnico imersivo para refugiados — o primeiro deste tipo no mundo árabe — que fica próximo ao campo de refugiados de Zaatari, em Amã, Jordânia. Utilizando um poderoso método inovador de treinamento, o RBK desenvolve engenheiros de software de altíssima qualidade — concluindo em quatro meses o que normalmente levaria quatro anos em uma universidade — empoderando os refugiados com habilidades muito procuradas para ajudá-los a sair da pobreza. O programa RBK é ministrado doze horas por dia, seis dias na semana por dezesseis semanas. De acordo com a boa prática humanitária, o RBK treina um número equivalente de refugiados e população local em situação de risco. O RBK também promove um programa de acompanhamento, por meio do qual profissionais de tecnologia de qualquer parte do mundo podem “adotar” um estudante RBK, permitindo que ele seja introduzido à cultura de sua futura profissão e comece a construir sua rede de relacionamento profissional. Hugh Bosely, fundador e diretor executivo do RBK, descreve como o programa está transformando a vida daqueles que foram deslocados devido a guerra e conflitos.

O que levou à criação do ReBootKamp?

Em 2014, eu estava trabalhando com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados estabelecendo programas esportivos para os residentes do campo de refugiados de Zaatari no norte da Jordânia. Depois de uma visita ao campo, em meados de outubro, perguntei a uma representante das Nações Unidas quantos computadores públicos havia ali. Ela respondeu: “Nenhum”, o que era um pouco alarmante considerando que, na época, esse campo era a quarta maior cidade da Jordânia. No caminho de volta para Amã naquele mesmo dia, delineei um programa de treinamento para promover a inclusão digital. Formulando o conceito, conectei três pontos: (1) há mais de 10 milhões de vagas de emprego não preenchidas pelo mundo todo por falta de qualificação, das quais 2 milhões são referentes a trabalhos na área de tecnologia; (2) existe um enorme contingente intelectual inexplorado nos campos de refugiados; e (3) nota-se um aumento de aceleradores de carreira (programas de treinamento especializado em desenvolvimento de sistemas). Os programas de treinamento surgiram como uma forma rápida de tirar completamente os refugiados e suas famílias da pobreza. Fiquei impressionado ao perceber que poderíamos utilizar um problema (imigração forçada e enorme potencial intelectual) para resolver outro (a lacuna de mais de 10 milhões de vagas disponíveis por falta de qualificação). De volta aos Estados Unidos, elaborei um plano utilizando tecnologias inovadoras em programas de treinamento para rapidamente desenvolver o conhecimento e habilidade dos refugiados e apresentei a proposta para meus contatos no Zaatari. Para minha surpresa, eles a aceitaram e, no segundo trimestre de 2015, tínhamos detalhado as particularidades do projeto e esboçado um contrato de parcerias. Nesse ínterim,

fechei parceria com uma das maiores instituições na área de programas de treinamento técnico do mundo, a Reactor Core, cuja escola parceira, a Hack Reactor, está fornecendo equipe, grade curricular e um expressivo suporte.

Você pode nos dar uma visão geral de como os candidatos são selecionados e o que faz o treinamento ter muito sucesso?

O aprendizado é imersivo, feito com rapidez (um complexo conhecimento é dividido em partes menores) e utiliza de ampla equipe de orientadores — dez orientadores para trinta alunos.

Nosso treinamento e estratégia incluem:

  • processo seletivo criterioso que avalia características relacionadas à liderança;
  • os participantes que trabalham em duplas e o aprendizado baseado em problemas. Utilizamos também o método “fire hose” (mangueira de incêndio), no qual o conteúdo é transmitido mais rápido do que os estudantes podem assimilar;
  • pedagogia baseada em falhas, na qual os estudantes utilizam tentativa e erro inúmeras vezes até encontrarem a resposta e, no final, é dada uma palestra de como proceder;
  • treinamento de aprendizagem autônoma, em que é ensinado ao aluno como se manter atualizado e como se adaptar às mudanças tecnológicas;
  • foco no desenvolvimento de habilidades interpessoais que são promovidas por meio de dramatizações e projetos em grupo, por exemplo;
  • treinamento prático e gradual;
  • apoio psicossocial que inclui duas sessões semanais de terapia em grupo, conhecidas por “tapouts” e também aconselhamento psicológico individualizado;
  • treinamento de autoconhecimento utilizando exercícios interativos como ioga, meditação e visualização mindfulness;
  • apoio em pós-graduação.

O parceiro cofundador da RBK, Hack Reactor, possui uma trajetória comprovada. O treinamento é 100% voltado ao mercado de trabalho e tem como foco formar técnicos de informática iniciantes e de nível médio, com sólida qualificação técnica, forte habilidade interpessoal e sólida capacidade de aprendizagem autônoma.

Como os estudantes apoiam uns aos outros em relação aos traumas dos conflitos e do deslocamento?

Apesar de acharmos que o estresse do treinamento intensivo poderia agravar o estresse oriundo do deslocamento, de modo geral ocorre o oposto. A intensidade do treinamento tem, de fato, suplantado o trauma, tornando-se um poderoso mecanismo de amortecimento. Em paralelo, no currículo estão inclusas duas terapias em grupo semanais que são conduzidas por conselheiros treinados. Os estudantes adoram essas sessões por ser a primeira vez, no contexto educacional, que eles são questionados sobre como se sentem no processo de aprendizagem. Esses encontros nos permitem entender ou reduzir quaisquer barreiras emocionais que possam interferir no aprendizado, estabelecendo um caminho mais direto para o conhecimento. Nós também oferecemos sessões individuais de apoio psicológico e um acompanhamento mais aprofundado quando necessário. Todo o time recebe treinamento para identificar e responder a uma desordem de estresse pós-traumático.

Qual é o motivo de reservar 60% das vagas para mulheres?

A decisão de favorecer jovens mulheres foi motivada primeiro por considerar que, na cultura árabe, as mulheres normalmente têm um desempenho acadêmico superior aos homens. Isso se converte em características que o mercado de TI [tecnologia da informação] valoriza — habilidades interpessoais, profissionalismo, autoconhecimento e aprendizado autônomo. Como somos uma organização baseada em resultados, as mulheres aumentam nossa capacidade de sermos eficazes e assim empoderamos mais jovens. O segundo motivo é porque as mulheres, enquanto classe, têm sido submetidas a uma discriminação institucionalizada e o RBK está proativamente desafiando atitudes arcaicas e promovendo a igualdade. Terceiro, a taxa de desemprego entre as mulheres é muito alta, aproximadamente 80% em algumas áreas. Associado a isso há a pressão para se casarem cedo, assim o caminho para as jovens saírem da pobreza é muito mais íngreme. As jovens no nosso programa têm tido mudanças dramáticas de mentalidade e na visão do mundo como resultado direto da experiência no RBK.  Alguns relatos relevantes de participantes incluem:

“Minha experiência no RBK me deu muito mais autoconfiança. Eu realmente sinto que posso aprender qualquer coisa agora. Estou mudada. Não consigo dizer exatamente como, mas vejo as coisas de forma diferente agora. Eu me sinto mais capaz, mais no comando”.

Elham Rababah, Jordânia

 “RBK me ensinou a ser mais paciente. Vejo as coisas de forma mais prática agora. Estou mais autoconfiante e me sinto mais capaz de encontrar as respostas para minhas questões e também para as das outras pessoas. Agora acredito que posso aprender qualquer coisa ao contrário de antes, e agora tenho mais confiança em minhas habilidades”.

Mihyar Almasama, refugiada da Síria

 “Aprendi mais em um mês do que em quatro anos na universidade”.

Mohammad Dabdab, refugiado do Iraque

 Além dos benefícios de poder deixar o campo de refugiados, tornar-se independente e ter um emprego estável, quais seriam outras habilidades que o estudante adquire? Que tipo de suporte o RBK oferece aos estudantes quando eles são realocados em outro país para trabalhar?

Fundamentalmente, nossos graduados são contratados não pela sua habilidade para programar — eles podem! —, mas devido às suas habilidades interpessoais e capacidade de aprender de forma autônoma. Nossos graduados são: colegas de trabalho divertidos; bons comunicadores e sabem escutar; capazes de trabalhar em equipe e criar consenso; excelentes em resolver problemas; e, por fim, são o tipo de funcionário que irá crescer e talvez, algum dia, venha a liderar a companhia ou será, de fato, promotor da paz. O mais importante, eles têm a capacidade de “se aprimorar” e, se necessário, também conseguem se reorganizar. A tecnologia muda rapidamente. Você pode ser um especialista hoje e ficar ultrapassado amanhã. Os programas das universidades não ensinam habilidades interpessoais e também não ensinam como aprender de forma autônoma.

Estudantes conversam numa sessão de terapia em grupo sobre os desafios que estão enfrentando durante o treinamento e como superá-los

Para nossos parceiros que contratam, essas habilidades são de longe mais importantes que a habilidade técnica. Nós ensinamos as duas coisas para nossos estudantes. O time do RBK é focado em combinar graduados com empregadores que melhor se encaixam em seus interesses e nos seus objetivos de carreira. Nós temos dezenas de parceiros empregadores locais e em outros países. Por sermos fundamentalmente um instituto para a paz que oferece aos graduados os tipos de habilidades necessários para reconstruir um país, nós desencorajamos a imigração internacional, pois isso reduz a probabilidade de participação no processo de promoção da paz e reconstrução.

Assim sendo, descobrimos um mecanismo pelo qual nossos graduados podem ser empregados por parceiros internacionais, porém trabalhando localmente. É chamado “assento virtual”, no qual os graduados são contratados diretamente pelos nossos parceiros do Vale do Silício mas trabalham na Jordânia, no espaço que fornecemos. Essencial para nosso sucesso e impacto é manter uma forte rede de relacionamento de alunos e promover um suporte de carreira para vida inteira. A experiência no RBK é uma mudança de vida e os alunos querem continuar conectados com a escola, retornando como convidados para palestrar e aconselhar.  Adicionalmente, RBK oferece workshops gratuitos nos fins de semana sobre empreendedorismo, gerenciamento, scrum master e outras certificações técnicas.

Quais são as transformações mais dramáticas que você já viu nos estudantes pelo envolvimento com o RBK?

No início do treinamento, faço uma palestra de autoconhecimento de dois minutos, na qual desenho um círculo de um lado da lousa e um quadrado do outro. Aponto para o círculo e digo “Isto É quem você é”. Depois, aponto para o quadrado e falo “Isto é quem você PENSA ser”. Estudantes conversam comigo posteriormente dizendo quanto aquela aula mudou a vida deles, dizendo que pela primeira vez tomaram consciência de si mesmos. Esse entendimento é dramático e transformador também. A habilidade de se desenvolver deve estar embasada em um entendimento correto sobre si mesmo e marca o começo de um caminho de felicidade e sucesso. Nas palavras de um estudante, “Eu agora tenho uma razão para viver”.

Hugh Bosely é fundador e diretor executivo do ReBootKamp (RBK), uma instituição sem fins lucrativos com sede em Amã, Jordânia, e em São Francisco, Estados Unidos. Ele acredita fortemente no poder da educação para fundamentalmente transformar a sociedade e no uso da tecnologia para promover a paz. Para mais informações, visite rbk.org.